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Sobre a Viola Caipira, as Tradições e a Intolerância

 

Pra mim instrumento é instrumento. E não interessa qual instrumento você toca, ele deve refletir o que você é... instrumento não é estilo de música, nem a própria música. O nome já traduz: "instrumento". Violino não é só música clássica (e virou rebeca na música caipira), cavaquinho não é só pagode, guitarra não é só rock, sax não é só jazz. É claro que esses estilos contribuíram, e muito, para o idiomatismo de cada instrumento... mas não são uma prisão. Á medida que um instrumento musical participa de outros estilos, ambos crescem! Querem um exemplo? O Cajón. Instrumento peruano levado para o flamenco pelo percussionista baiano Rubem Dantas, que tocou com Paco de Lucia durante toda a sua carreira. Hoje, o Cajón tornou-se parte da cultura do flamenco, e com isso evitou ficar conhecido apenas em sua terra natal, com as músicas daquele país.

 

Curiosa também a história da viola caipira, que vem de tradições medievais, veio com os jesuítas pra cá e passou pelo samba, em seus primórdios, no Rio de Janeiro. Se alguém lendo esse texto, acha que sou contra as tradições, não sou. A viola é linda na música caipira e a traduz com perfeição melhor que qualquer outro instrumento ou meio. Mas se ela for categorizada como instrumento exclusivo daquele estilo, vai perder sua história anterior e arriscar-se a perder a futura também, posto que tradição, ainda que preservada, deve ser espalhada pela modernidade, de modo a ser procurada e lembrada. No blues, Muddy Waters e Buddy Guy (entre outros) sempre louvaram os Stones, porque até eles aparecerem com seu rock, o estilo (blues) estava morrendo e os artistas a que ele representavam tinham de trabalhar como pedreiros pra se sustentar. Eis que, ao reverenciar o Blues (e colocar os bluseiros para tocar junto com eles, na TV e em shows, homenageando-lhes sempre que possível) os Stones contribuíram para salvar-lhe a vida. Todo violeiro deve reverenciar a viola caipira, mas, se todos forem caipiras, então o estilo caipira morrerá na fazenda - ou se transformará em sertanejo universitário (cada vez com mais acordeon e guitarra e menos viola). E tem outra coisa aqui: quantos violeiros tiraram leite de vaca e passaram a infância montados a cavalo? Conheço muito agroboy que se veste de "cidade-grande" e muita gente que nasceu em capital usando chapéu e botas - sim, tem gente que nasceu na capital mas tem alma sertaneja, e vice-versa: qual o problema nisso, ou em tocar o "urbano" num instrumento "caipira"? Há de se definir o urbano e o caipira num mundo globalizado e determinado pela mídia, onde caipira e urbano no Brasil ouvem e se identificam com a mesma música de massa, o "sertanejo".

 

Devemos louvar e reverenciar as tradições, que são o tronco da árvore (no caso da viola a raiz está na Europa, e ainda vive nas terras portuguesas) e aceitar a modernidade que mantém viva a tradição. Em se tratando da Viola de 10 Cordas Brasileira, a Viola Caipira, filha da Viola de Arame portuguesa, acredito que cada artista que com ela se comunica deve tocá-la de maneira a refletir sua história pessoal e as estórias de seu coração.

 

Defendo aqui a liberdade da música, que pode morrer, como muita coisa anda morrendo neste país, pela intolerância e falta de informação, enquanto cada um só pensa no seu próprio umbigo, todos ávidos pelo "sucesso", passando por cima de tudo e de todos, desdenhando e rebaixando amigos e artistas do meio em prol de sua vã vaidade e orgulho, sem o menor respeito a alguém que não para si mesmos. Para esta maioria narcisa, conservadora ou moderna, não é bonito o que não é espelho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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